BADAGLIACCA, Vanessa — Text for the handout of the exhibition Museu Mineiro


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É apenas a plena realização do nosso comportamento auto-destrutivo partilhado,
quer do bloco oriental ou ocidental, quer do hemisfério norte ou sul,
o que nos pode levar adequadamente a uma mudança.
Chamei a esta mudança um tempo para florescer.
Rosalie Bertell, No Immediate Danger. Prognosis for a Radioactive Earth, 1985

A actual crise climática e a consequente necessidade urgente de encontrar formas alternativas de produzir energia, a guerra na Ucrânia que começou em Fevereiro deste ano trazendo à tona a dependência energética de alguns países europeus e mediterrânicos dos combustíveis fósseis importados da Rússia, despertou uma nova preocupação em relação à produção de energia nuclear. Esta está ligada a medos que evocam algumas das mais terríveis catástrofes dos séculos XX e XXI, como as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, o acidente nuclear em Chernobyl, a catástrofe de Fukushima, as experiências nucleares na Coreia do Norte, para chegar à actual ameaça nuclear causada pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

O imaginário proveniente da energia nuclear, referido pelo poeta Drew Milne no seu “Poetry After Hiroshima? Notes on Nuclear Implicature” (2017), está actualmente a reemergir com uma dupla face relativa ao poder e perigo que transmite. O que é que torna a energia nuclear de hoje tão fácil, tão atractiva? Retornando à pergunta do título de uma colagem que Richard Hamilton apresentou em 1956 e substituindo a palavra original “Casa” por “Nuclear,” podemos encontrar algum espaço para reflexão. Através dessa peça, o artista britânico reconheceu o espaço doméstico como a principal arena por onde canalizar a publicidade de um novo conjunto de mercadorias que inclui o corpo masculino e o feminino, como resultado de uma sociedade consumista. Ambos são uma imagem de progresso e uma promessa de modernidade que anda a par com a possibilidade de emancipação por parte de fornecedores externos.

No caminho para a optimização da energia solar e eólica, a energia nuclear é vista como uma resposta para manter uma produção constante deste tipo de energias renováveis, sendo por isso útil para estabilizar o valor das chamadas energias limpas e para alcançar o nível de emissões zero. A promessa de uma tecnologia avançada para a sua implementação torna-a ainda mais apelativa, oferecendo uma imagem de produção energética actualizada e compatível com as necessidades individuais e industriais. No entanto, este tipo de peritagens parecem descartar completamente ou ocultar o outro lado da suposta imagem de pureza e limpeza que a energia nuclear produzida com a tecnologia mais sofisticada deseja vender. Por mais limpa e pura que seja não se livra, e não se pode livrar, dos resíduos provenientes do urânio. Numa altura em que o benefício da suposta energia limpa é promovido como uma promessa para a implementação de uma energia que dispensa a exploração dos solos e dos recursos que empobrecem a Terra, o perigo dos resíduos nucleares é silenciado. O nuclear é atractivo, limpo, moderno e avançado. Numa palavra, é a evolução.

As artes têm respondido com interesse e colocado questões complexas sobre a produção de energia nuclear, quer seja a favor ou contra. Por exemplo, no contexto do pós-guerra Italiano, as centrais nucleares instaladas no sul da Itália no início dos anos 1950 foram consideradas uma via para o desenvolvimento industrial – embora sem qualquer consenso político público através de uma votação que legitimasse a sua implementação no país – e encerradas imediatamente após o desastre de Chernobyl. Este foi o ambiente social e político que em 1951 deu origem ao “Manifesto Della Pittura Nucleare” (“Manifesto de Pintura Nuclear”), cujos principais porta-vozes, Enrico Baj e Sergio Dangelo, consideraram inicialmente com entusiasmo as novas possibilidades oferecidas pela energia nuclear. Este último foi associado à disrupção do academicismo no campo da arte e ao alargamento das fronteiras desta disciplina, tal como o Futurismo ou o Espacialismo tentaram fazer anteriormente.

No entanto, como a historiadora de arte Gabrielle Decamous (2011) aponta de forma contundente: o interesse pelo átomo dentro das artes não surgiu após o bombardeamento, mas data de há muito tempo, por exemplo, da filosofia grega e da poesia latina com De Rerum Natura, de Lucretius, que também inspirou a obra de Enrico Baj. No entanto, Baj não levou muito tempo a afastar-se da fé depositada no nuclear e a desenvolver uma postura anti-nuclear crítica relativamente a esse cenário. É um facto que os desastres atómicos que ocorreram no século XX e início do século XXI foram cruciais para que os artistas tomassem uma posição – a curto ou a longo prazo – relativamente ao perigo da energia nuclear.

Também parece valer a pena mencionar o movimento feminista anti-nuclear em ascensão no Reino Unido e nos EUA no final dos anos 1970 no âmbito do crescente interesse pela energia nuclear e pelas suas consequências. O enfoque na cultura nuclear e radioactiva na arte contemporânea merece, de facto, uma argumentação mais alargada. O que parece relevante neste contexto, é reconhecer o conjunto de obras que Isabel Carvalho apresenta nesta exposição na galeria Quadrado Azul como um lugar para repensar e complexificar questões que esbatem as fronteiras entre arte e ciência, e que também implica uma convergência de posições políticas, sociais e estéticas.

Tomando como ponto de partida uma forma de “pensar a partir de” (nas palavras de Donna Haraway) uma história situada que a leva a metaforicamente à “mina” das suas memórias de infância, Isabel Carvalho explora um local no norte de Portugal, chamado Urgeiriça. Intersectando a história local e os enredos materiais que interrogam e pedem para tomar uma posição sobre o papel e a “capacidade de resposta” (continuando com as palavras de Haraway) que o país tinha e tem em relação à extracção de urânio como matéria-prima para exportação, esta exposição entrelaça as relações entre indústria nuclear, história nuclear e estética. Se a extracção de urânio não foi e não é ainda considerado um processo nuclear, segue-se que se aplicam regulamentos diferentes das centrais nucleares, e consequentemente ao controlo e segurança dos trabalhadores e do ambiente. Estas relações políticas complexas são sintetizadas pela historiadora Gabrielle Hecht (2013) através do conceito de “nuclearidade”. E – como o título de uma das peças apresentadas atesta – os habitantes da aldeia reivindicam um Museu do Mineiro.

O conjunto de obras apresentado por Isabel Carvalho, embora ancorado num local e num tempo específicos, parece transcender qualquer definição e medida cronológica. Uma dimensão do mito, antiga e moderna, é convocada numa espécie de dimensão intemporal. Depois de nos depararmos com a peça Sol Acidental, que nos mergulha num duplo contraste de azul e amarelo, estamos encapsulados numa espécie de escala de tempo que se estende desde uma dimensão pré-humana a uma dimensão pós-humana, através do Friso dos geóglifos, Cintilografia,Reclamando uma intra-actividade em direcção às Epistemologias Civis: Por um Museu Mineiro e As pequenas candeias; os últimos habitantes. Desta forma, a artista cria relações simbólicas entre a matéria e os processos ambientais nas paisagens nucleares que alteram as noções convencionais de tempo e espaço. Como Karen Barad assinalou: “A temporalidade da exposição à radiação não é de imediatismo; pelo contrário, a radiação reelabora esta noção, que deve então incluir gerações anteriores e vindouras”. (2017: G109)

O trabalho de Isabel Carvalho evoca imagens de uma anatomia florescente em plena força. A respiração, por mais involuntária e natural que possa parecer, liga-nos a uma espécie de forma de viver ancestral no planeta, e no entanto, neste contexto de efeitos de cor deslumbrantes, evocações de partes anatómicas dos corpos em grande escala provocam uma sensação de perturbação e desconfiança, que contrabalança com uma elegância e sensualidade vibrantes. Desenhar com argila – como a artista declarou uma vez no seu estúdio – pode ser considerado uma espécie de processo de impressão, imprimindo sobre a superfície para lhe dar forma.

Metaforicamente, poderia traduzir a forma como a radioactividade deixa a sua marca na paisagem e em todos aqueles que nela vivem, se deitam, e até voam. Uma interrogação acerca da responsabilidade humana em relação ao uso passado e presente do nuclear que não tenta recuperar uma suposta ideia de natureza perdida, mas sim tentar abrir-se a novos entendimentos para re-habitar um planeta degradado. Abordando questões sociais, políticas e estéticas, a exposição “Um Museu Mineiro” abre um espaço para o debate, para pensar em possíveis formas de mudança, para um tempo de florescimento.
2022